Por Renato Carneiro
Lidar com a obsolescência de um parque tecnológico é um desafio multifacetado, que não termina, e nem mesmo começa, nos custos de atualização de equipamentos e sistemas. Além da busca por eficiência, com maior adoção de serviços de nuvem e infraestrutura as a service, a explosão no volume de dados gerados por IA, dispositivos móveis e trabalho remoto, por exemplo, força a modernização da TI nas empresas. E, com a substituição de infraestruturas legadas, surge um impasse: o que fazer com os equipamentos obsoletos?
A maneira de descartar os ativos tecnológicos aposentados é um problema complicado de ser resolvido, pois envolve aspectos legais, ambientais e logísticos, além dos financeiros. Todos eles convergem para a governança corporativa e exigem da empresa uma atitude responsável, e que muitas vezes é regida por firmes políticas de ESG.
Não estamos falando de um problema isolado: a pegada de carbono do setor de TI chega a até 4% das emissões globais, segundo a International Telecommunication Union (ITU). A infinita necessidade de mais armazenamento e capacidade de processamento traz uma consequência inevitável: milhares de toneladas de equipamentos de TI (servidores, roteadores, switches, storages) tornam-se obsoletos a cada ciclo de atualização.
Estima-se que o lixo eletrônico (e-waste) já ultrapasse 60 milhões de toneladas/ano no mundo todo, de acordo com a ONU (Global E-waste Monitor 2024), sendo que apenas 17,4% desse volume é reciclado corretamente. A estimativa da ONU é que esse montante chegue a 80 milhões de toneladas em 2030, o que dá uma dimensão da urgência em aumentar os esforços de descarte e reciclagem adequados.
Além de todos os fatores que impulsionam a modernização tecnológica e que já citei aqui, há aqueles equipamentos que são descontinuados pela indústria, e para os quais o cliente deixa de ter atualização de software e serviço de suporte. Ou seja, a continuidade no uso do produto é inviabilizada. Esse prazo fatal é chamado de LDoS (last day of support) e, a partir dele, o que se tem é menos eficiência e (muito) mais vulnerabilidade. Por isso, não há gestor de TI que queira manter a sua antiga base de infraestrutura.
Por tudo isso, aqui na 2S temos um programa estruturado de refresh tecnológico para clientes que utilizam tecnologia Cisco. Nós recolhemos os equipamentos em fim de vida e cuidamos, com apoio das fábricas parceiras, para que sejam reciclados ou tenham seus componentes reutilizados, garantindo assim os objetivos de sustentabilidade tanto da 2S como de seus clientes.
Em 2020, houve a implementação do Decreto Federal 10.240, que obrigou as empresas a implantarem sistemas de coleta e logística reversa para produtos eletroeletrônicos. O mesmo decreto tornou compulsória a criação de pontos de coleta seletiva nos municípios para atender a pessoas físicas. Isso levou a uma ampliação desses pontos de recebimento e uma maior conscientização sobre a necessidade de separar esses itens do lixo convencional. E os números podem provar isso.
Dois anos depois do decreto, o volume de itens eletrônicos reciclados saltou de 16 toneladas para 1.200. Um avanço exponencial, mas ainda pequeno diante do tamanho do desafio: apenas 3% de todo o lixo gerado no Brasil é reciclado, segundo dados do Governo Federal. O levantamento não especifica quanto desse percentual é de lixo eletrônico, mas podemos concordar que 3% de reciclagem em um país de dimensões continentais é um número terrivelmente baixo. Cabe também apontar que as normas estabelecidas pelo decreto não são regularmente fiscalizadas de forma homogênea no território nacional, e isso tende a levar a um relaxamento das práticas.
Seja como for, o programa de refresh tecnológico da 2S leva em consideração tanto os requerimentos legais vigentes em território brasileiro, segundo as especificações da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e das leis estaduais, como as questões de compliance pertinentes ao cliente – que, no caso de empresas multinacionais, podem também se correlacionar a normas internacionais. Afinal, a questão não é apenas ambiental — é um tema central para todas as dimensões do ESG.
No front ambiental, por exemplo, a destinação correta dos equipamentos obsoletos ajuda a reduzir a necessidade de extração de recursos naturais, economizar energia associada à produção de novos componentes e diminuir a emissão de CO₂ relacionada à fabricação de tecnologia. Além disso, a eliminação de substâncias tóxicas em aterros reduz o risco de contaminação ambiental e protege ecossistemas inteiros.
A dimensão social, por sua vez, vem por caminhos menos diretos, mas não menos importantes.
A destinação correta e a reciclagem impactam diretamente a saúde humana e comunidades vulneráveis. Via de regra, o lixo eletrônico costuma ser destinado a localidades onde vivem comunidades vulneráveis, especialmente em países ou regiões sem infraestrutura adequada. Ao redor desses aterros, as populações acabam desenvolvendo alguma espécie de atividade econômica informal, expondo essas pessoas e suas famílias a substâncias perigosas, como o lítio das baterias elétricas, com efeitos negativos sobre a saúde neurológica e respiratória.
Ainda nesse aspecto, há um ganho importante: ao adotar a reciclagem de todo tipo de lixo eletrônico, incentiva-se a economia circular, na qual produtos e materiais são mantidos em uso pelo maior tempo possível. Isso pode reduzir o desperdício, economizar energia, impulsionar a inovação, aumentar a resiliência da cadeia de suprimentos e diminuir os custos.
Já do ponto de vista da governança, é necessário lembrar que vários países do mundo já exigem provas documentadas de descarte e reciclagem responsável. É por isso que nós emitimos um certificado em nosso programa de logística reversa, listando os itens entregues, e detalhando a porcentagem deles que foi reciclada. Em média, reciclamos 99% dos itens que coletamos – e nos certificamos de que todos os dados que ainda possam ter permanecido sejam apagados, em conformidade com leis como LGPD e GPDR.
Subestimar a gestão de resíduos de TI significa, portanto, ignorar um dos maiores desafios ambientais de nossa era. Organizações que não desenvolverem estratégias claras de descarte e reciclagem enfrentarão riscos crescentes: desde passivos ambientais e multas até perda de reputação e competitividade. Por outro lado, empresas que abraçam o ciclo completo de vida dos seus ativos tecnológicos — incluindo a reciclagem e a reutilização — não só contribuem para uma economia mais circular, como também fortalecem sua posição em mercados que cada vez mais dão peso a critérios não financeiros.
No fim das contas, transformar um passivo inevitável — equipamentos obsoletos — em uma vantagem competitiva sustentável é uma prova de que a liderança corporativa é mais que coordenar processos. É, antes de tudo, uma ferramenta para a transformação do mundo que temos para o mundo que queremos.